Sabe-se que Judas, o discípulo traidor, recebeu o valor de 30 moedas de prata para entregar a Jesus aos guardas romanos por meio da famosa ação da traição com um beijo. Após ele perceber o que havia feito, tenta voltar atrás e devolve o dinheiro, mas já era tarde demais. Ele joga o dinheiro para os sumos sacerdotes, porém eles não devolvem o valor aos cofres do templo. Eles compram, com este valor, um campo de um oleiro, o qual serviria para cemitério de estrangeiros.
O apóstolo Mateus Levi, quando relata o evangelho, atribui que esse acontecimento fora predito anteriormente pelo profeta Jeremias. Porém, será que ele errou a referência? Seria Jeremias ou Zacarias? Ou será que o texto é uma citação dos dois profetas?
I. Profecias de Zacarias
É possível perceber, ao ler de forma rápida, como o texto de Mateus se assemelha com o de outro profeta, Zacarias:
Abaixo aparece o mesmo texto, só que em grego, onde estão destacadas as palavras semelhantes nos dois textos:
Mesmo em Português, é possível perceber a semelhança, mas, ao mesmo tempo, entender que não é uma citação direta, palavra por palavra:
“Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, que certos filhos de Israel avaliaram, e deram-nas pelo campo do oleiro…” (Mateus)
“E tomei as trinta moedas de prata, e as arrojei ao oleiro…” (Zacarias)
Para quem não sabe a diferença, uma citação direta é a reprodução literal das palavras de um autor. Já a citação indireta consiste na interpretação ou parafraseio das ideias de um autor, utilizando suas próprias palavras.
Por exemplo, uma citação direta seria: "A ciência não contraria a fé cristã; pelo contrário, aponta para a existência de um Criador" (Adauto Lourenço, 2010, p. 78). Já a citação indireta poderia ser: Adauto Lourenço afirma que a ciência, longe de ser oposta à fé cristã, reforça a evidência de que há um Criador por trás do universo (2010). Ambas são formas válidas de incluir ideias de outros autores em novos textos
Ou seja, Mateus faz uma citação indireta de Zacarias, utilizando algumas palavras do rolo do profeta. Isso porque:
30 moedas de prata: Zacarias foi preciso ao afirmar o valor exato que o Messias seria vendido.
Oleiro: E ele também cita o oleiro, que é quem o avaliou dentro da casa do Senhor.
Arrojei: Ainda aparece o verbo “arrojei”, que é o termo hebraico shâlak [שׁלך], que pode significar: jogar, lançar, arremessar, atirar, jogar fora, lançar fora, soltar, lançar ao chão, ser jogado, ser lançado, ser jogado fora, ser lançado ao chão (Concordância de James Strong).
Esse último termo é citado no contexto da passagem de Mateus, quando ele menciona que Judas joga as moedas de prata ao chão do templo:
“E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.” Mateus 27:5
Não há dúvidas de que existe uma grande inspiração na profecia de Zacarias. As palavras de Mateus foram inspiradas do rolo do profeta Zacarias. Entretanto, uma das palavras que diferencia bastante os dois textos é o termo “.campo”. Em Zacarias não há menção com relação ao campo comprado, mas já em Jeremias…
I. Profecias de Jeremias
Entendido tudo isso tratado até aqui, qual seria, então, a relação desse acontecimento entre Judas e os sacerdotes com o profeta Jeremias?
A partir de agora vamos avaliar alguns fatos e profecias de Jeremias com a citação de Mateus:
Em Jeremias 18, o profeta estava na casa do oleiro (passagem famosa por muitas pregações e canções) e, no capítulo 19, Deus o pede para comprar uma “botija de oleiro” (vs 1 e 11). O assunto de sua pregação no capítulo 19, contudo, estaria associado a um local (o Vale do Filho de Hinom). Este vale seria onde ocorreria uma matança como juízo divino por causa da traição (idolatria) do povo de Judá e por causa do derramamento de “sangue de inocentes” (vs 4) que eles despejaram. Ali também eles seriam enterrados (“os enterrarão em Tofete, porque não haverá mais lugar para os enterrar.” vs. 11).
O vaso que pode ser remodelado pelo oleiro simboliza o Israel que será restaurado no final dos tempos, o remanescente (capítulo 18). Porém, o vaso que seria quebrado e enterrado neste campo representa o Israel que não se arrepende (capítulo 19).
Sendo assim, podemos associar algumas ideias e alguns termos de Mateus 27:7-10, com Jeremias 19:1-13:
o oleiro vende algo (Em Mateus, o campo);
o sangue inocente foi derramado (Em Mateus, Jesus);.
a denúncia da traição dos que deveriam amar a Deus (Em Mateus, Judas);
o vale seria usado como cemitério (Em Mateus, o campo comprado).
Já na passagem de Jeremias 32:6-15, percebe-se Deus pedindo ao profeta, que estava preso por pregar a verdade, para que ele comprasse um campo de um parente seu, já que ele tinha o direito de resgate. O campo ficava em Anatote, terra de Jeremias, ou seja, um campo sacerdotal. Jeremias era sacerdote, ou seja, era levita da linhagem de Arão (Jeremias 1:1). O valor avaliado foi de dezessete siclos de prata. A compra em si parecia ser um ato louco, já que Babilônia estava tomando tudo, mas esse foi um pedido de Deus como prova de fé que os judeus ainda voltariam a ter herdades naquele lugar….
A escritura de compra deveria ser guardada em um vaso de barro, para ser preservada até que o juízo passasse. Surge novamente a representação do oleiro, através do vaso de barro. Coincidência? Obviamente, não…
O sacerdote compra o campo (Em Mateus, os sumos sacerdotes);
O preso inocente (Em Mateus, Jesus).
A Escritura guardada no vaso produzido pelo oleiro (Em Mateus, o campo era do oleiro);
A denúncia do povo que traiu a Deus com os falsos ídolos (Em Mateus, Judas era o traidor).
Mas as profecias não terminam por aí. Deus, pela boca de Jeremias afirmou:
“Comprarão campos por dinheiro, e assinarão as escrituras, e as selarão, e farão que confirmem testemunhas, na terra de Benjamim, e nos contornos de Jerusalém, e nas cidades de Judá, e nas cidades das montanhas, e nas cidades das planícies, e nas cidades do sul; porque os farei voltar do seu cativeiro, diz o Senhor.” Jeremias 32:44
De fato, os israelitas foram escravizados pelo império babilônico, mas voltaram para a terra de Israel após 70 aos de escravidão e tornaram a comprar campos em volta de Jerusalém, como os sumos sacerdotes o fizeram…
Sim! Quando os líderes religiosos de Israel compraram o campo com o dinheiro devolvido por Judas, eles estavam cumprindo as profecias de Jeremias também! Aleluia!
Voltando a analisar o texto de Zacarias, é possível notar que em nenhum momento ele cita a compra de um campo, que é justamente o assunto de Mateus:
O acréscimo mais importante aqui, então, é a palavra "campo", sobre a qual depende o cumprimento da profecia citada pelo evangelista.
Em Zacarias, o oleiro avalia o profeta com 30 moedas de prata, valor de um escravo.
No capítulo 18 de Jeremias, aparece o sacerdote comprando do oleiro.
No capítulo 32 de Jeremias, aparece o sacerdote comprando um campo.
Para Mateus, tudo se junta a uma grande profecia! Ele encontra, nas ações de Judas e dos sacerdotes, o cumprimento das profecias de juízo feitas tanto por Zacarias quanto por Jeremias. A relação entre a profecia e seu cumprimento depende dos dois profetas…
I. Porque só Jeremias, e não Zacarias?
Mas, já que é assim, porque, então, Mateus só cita Jeremias, e não, também, Zacarias?
Há quem afirme que Jeremias pode ter citado todas aquelas palavras também proferidas por Zacarias e esse discurso pode ter sido passado de forma oral entre os israelitas. Essa hipótese é possível porque não aparece o termo “escrito” ou “escritura” ou “rolo” em Mateus. Ou seja, o evangelista não diz que Jeremias escreveu, mas apenas vaticinou (previu, profetizou, prenunciou). Vide, por exemplo, citações de tradições orais de Jesus (Atos 20:35) e Enoque (Judas 1:14) que não constam em outros textos mais antigos. Outro ponto é que os profetas tinham mensagens semelhantes que se complementam. Vide as semelhanças entre os textos de Isaías 2:2-4 e Miqueias 4:1-3. Se for este o caso, Zacarias registrou o que também, de alguma forma, Jeremias profetizou cerca de 70 anos antes. E isso foi revelado a Mateus pelo Espírito Santo ou pode ter passado por tradição oral.
Ainda há o pensamento de que, na verdade, foi um erro de algum escriba. Neste caso, o termo “Jeremias” teria sido adicionado posteriormente por um copista. Por exemplo, Bengel, na obra Gnomon, seu leitor John Wesley, em seu Explanatory Notes on the New Testament, e Adam Clarke, que disse: "É muito provável que a leitura original fosse dia tou prophetou ['por meio do profeta'], e que não fosse mencionado o nome de nenhum profeta". Porém, "Jeremias" é o que está escrito em praticamente todos os manuscritos gregos, incluindo o mais antigo, que ainda existe (Comentário Bíblico de Beacon).
Por último, outra explicação seria a encontrada na divisão judaica do chamado Antigo Testamento. O Tanach, assim como os israelitas o chamam, é organizado em três seções: a Torah (ou Lei), os Escritos e os Profetas. Na ordem rabínica dos livros proféticos, Jeremias seria o primeiro desta terceira lista, e não Isaias. Uma passagem do Talmude (baba Bathra 14b) defende esta ordem, colocando Jeremias como o livro de abertura dos profetas posteriores. Por isso, ele poderia ser usado em Mateus representando toda a parte que contém os livros proféticos, inclusive Zacarias. Exatamente como o nome "Salmos" se aplica a toda a parte dos Escritos porque é o seu primeiro livro; conforme consta em Lucas 24:44 (Comentário Bíblico da versão NVI por Frederick Fyvie Bruce, Comentários bíblicos por Charles F. Pfeiffer, e Comentário de John Fullerton MacArthur Jr).
Conclusão:
A análise do relato em Mateus 27:7-10 e sua relação com as profecias de Zacarias e Jeremias demonstra a riqueza e a profundidade das Escrituras, além de revelar a complexidade da interpretação profética. A convergência entre os textos de Zacarias e Jeremias aponta para um Deus que, desde os primórdios, desenhou um plano redentor que culminaria no sacrifício de Cristo. O campo do oleiro e as 30 moedas de prata não são apenas eventos históricos, mas símbolos profundos da traição humana e do propósito divino de redenção.
No entanto, além de refletir sobre a fidelidade profética e a soberania divina, este texto também nos convida à introspecção pessoal. Judas, atormentado pela culpa, escolheu o caminho da destruição, enquanto o sacrifício de Cristo oferece a cada ser humano uma oportunidade de reconciliação com Deus. Seja como for, a loucura do preço de morte de Judas comprou um cemitério para forasteiros! Porém, a morte do Messias comprou a redenção do mundo! Glórias a Deus!
A mensagem é clara: por maior que seja a culpa ou o erro, há esperança e perdão em Jesus. Ele já pagou o preço para que possamos encontrar paz e redenção. Que este ensinamento inspire corações a buscarem o refúgio e o consolo que somente Cristo pode oferecer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário