O Escritor do Evangelho Segundo Mateus
A história sobre a vida terrena de Jesus está relatada por meio dos quatro livros do Evangelho. Mas, quem escreveu esses livros? Mateus, Marcos, Lucas e João, assim como vemos no título de cada livro. Mas, como comprovar que foram eles mesmos os escritores? Como eles escreveram? Todos eles eram discípulos diretos de Jesus? Essas e outras perguntas pretende-se responder.
Para muitos servos de Jesus, essas perguntas parecem ser óbvias, porém, em dias de ataques contra a Palavra de Deus, é necessário responder a essas e outras questões. Isso porque, embora os quatro livros tenham sido atribuídos tradicionalmente desde os primeiros séculos da Igreja, aos personagens cujos nomes carregam os livros, há quem, atualmente, dois mil anos depois,”do nada”, sem nenhuma evidência direta, seja arqueológica, linguística etc., proponham falsas visões sobre seus escritores.
Por exemplo, há quem alegue que os livros do Evangelho foram produzidos, não por uma pessoa, mas por um grupo de pessoas, cujas comunidades cristãs estavam ligadas aos apóstolos, reunindo ensinamentos e memórias transmitidos oralmente sobre Jesus, Esses textos teriam supostamente originalmente circulado de forma anônima e que os títulos com os nomes teriam sido acrescentados posteriormente pela tradição cristã para dar peso aos escritos.
A questão é que:
1. Os livros trazem diversas evidências internas de que possuem, cada um, um único escritor. Cada Evangelho possui estilo literário próprio, estrutura organizada, objetivo próprio e pistas, como pronomes pessoais. A unidade interna dos textos sugere escritores definidos, não produção coletiva indefinida.
2. Os manuscritos antigos conhecidos já trazem títulos ligados a pessoas: “Segundo Mateus”, “Segundo Marcos” etc.
3. Os testemunhos de fontes extra-bíblicas sobre a escrita dos quatro evangelistas são muito antigos e ligados à era apostólica. Não se trata de uma invenção posterior. A Igreja antiga, desde os primeiros séculos, por meio de escritos de discípulos dos discípulos, atribuía os Evangelhos a esses escritores específicos, não a comunidades anônimas, como estão sugerindo atualmente.
4. Não há registros antigos chamando os livros do Evangelho de obras de comunidades específicas. Nem os livros do Evangelho, nem nenhum outro livro das Escrituras ou fora dela. Por exemplo, não existe manuscrito antigo atribuindo os Evangelhos a uma comunidade específica, como “Evangelho da comunidade de Antioquia” ou “de Éfeso”. A teoria das comunidades depende mais de hipóteses acadêmicas modernas do que de evidências diretas.
5. Seria bem estranho que a Igreja aceitasse unanimemente quatro obras anônimas sem questionar sua origem apostólica.
6. Se os textos fossem originalmente obras coletivas e anônimas, seria difícil explicar como igrejas espalhadas por regiões diferentes chegaram tão cedo às mesmas atribuições sem controvérsia significativa.
7. Igrejas de regiões diferentes e línguas distintas preservaram as mesmas atribuições de cada escritor. Se as atribuições de nomes fossem posteriores, poderia haver divergências e até disputas.
“Este é o discípulo que testifica destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.” João 21:24
“Pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio; Para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado.” Lucas 1:3,4
Esses dois textos, como exemplo, deixam claro que há um só escritor para o Evangelho Segundo João, e também um só escritor para o Evangelho Segundo Lucas. Os mesmos estão escrevendo os textos. Se fosse uma comunidade escrevendo posteriormente, eles iniciariam ou terminariam o seu livro com uma mentira para dar peso ao seu escrito, dizendo que João escreveu, mas ele não escreveu? A suposta comunidade de Lucas escrevia que Lucas está escrevendo, mas, na verdade, ele já estaria morto e quem está escrevendo é um grupo posterior que foi influenciado por Lucas? Isso seria mentira! E se eles mentissem nesse ponto, em quais mais pontos também haveria mentiras? Enfim, essa teoria é maldosa, tendenciosa e faz parte de um sistema que almeja descredibilizar as Escrituras.
Nessa primeira parte, vamos analisar o fato de Mateus ter escrito o livro que lhe é atribuído:
1. MATEUS LEVI
As três passagens abaixo mostram o publicano, ou seja, o cobrador de impostos, Mateus Levi, sendo chamado para ser um discípulo de Jesus:
"Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: 'Segue-me'. Ele se levantou e o seguiu." Mateus 9:9
"Passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria e disse-lhe: 'Segue-me'. Ele se levantou e o seguiu." Marcos 2:14
"Depois disso, Jesus saiu e viu um publicano chamado Levi, sentado na coletoria, e disse-lhe: 'Segue-me'. E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu." Lucas 5:27-28
As três narrativas descrevem claramente o mesmo acontecimento: o chamado do publicano que estava sentado na coletoria e que imediatamente deixou sua profissão para seguir Jesus. A diferença está apenas no nome utilizado. Enquanto o Evangelho que Mateus escreveu chama de “Mateus”, os relatos paralelos em Evangelho que Marcos escreveu e Evangelho que Lucas escreveu utilizam o nome “Levi”. Isso não representa uma contradição, mas é compreendido como o uso de dois nomes para a mesma pessoa, algo muito comum no contexto bíblico. Assim como Simão era chamado Pedro e Saulo passou a ser chamado Paulo, Levi também era conhecido como Mateus.
Essa identificação se torna ainda mais evidente quando se observa as listas dos apóstolos:
"Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;" Mateus 10:3:
"Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelote," Marcos 3:18:
"Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado Zelote," Lucas 6:15:
"Quando ali entraram, subiram para o cenáculo onde se reuniam Pedro, João, Tiago e André; Filipe, Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago." Atos 1:13:
Depois do relato do chamado de Jesus, Marcos, Lucas e até o livro de Atos dos Apóstolos passam a chamá-lo sempre de “Mateus”, nunca mais de Levi. Além disso, não existe nas listas apostólicas um discípulo chamado Levi separado de Mateus, o que reforça que ambos os nomes pertencem à mesma pessoa. O próprio Evangelho de Mateus destaca “Mateus, o publicano”, ligando diretamente o apóstolo ao cobrador de impostos chamado por Jesus. Dessa forma, os textos se harmonizam naturalmente e fortalecem a tradição de que o apóstolo Mateus era o mesmo Levi que trabalhava na coletoria antes de seguir Cristo.
Essa explicação é importante para entender o próximo ponto:
1.1. Evidências Internas de que Mateus escreveu o Evangelho:
1.1.1. O Uso do Pronome
A evidência a ser apresentada aqui de que Mateus escreveu o Evangelho manifesta-se de forma sutil, mas profunda, pela maneira como ele descreve o banquete oferecido a Jesus logo após o seu chamado:
“E Jesus, passando adiante dali, viu assentado na recebedoria um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu. E aconteceu que, estando ele em casa sentado à mesa, chegaram muitos publicanos e pecadores, e sentaram-se juntamente com Jesus e seus discípulos.” Mateus 9:9,10
“E, passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado na recebedoria, e disse-lhe: Segue-me. E, levantando-se, o seguiu. E aconteceu que, estando sentado à mesa em casa deste…” Marcos 2:14,15
“E, depois disto, saiu, e viu um publicano, chamado Levi, assentado na recebedoria, e disse-lhe: Segue-me. E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu. E fez-lhe Levi um grande banquete em sua casa…” Lucas 5:27-29
Há dois detalhes importantes a serem apresentados: Enquanto Marcos e Lucas, escrevendo como observadores externos, fazem questão de identificar que, primeiro, o evento ocorreu na casa "dele" (de Levi) e que, segundo, o anfitrião preparou um "grande banquete", Mateus utiliza uma linguagem muito mais discreta e pessoal:
Em primeiro lugar, em seu relato, Mateus menciona apenas que Jesus estava sentado à mesa "em casa", sem utilizar pronomes possessivos para se identificar como o dono da residência. Para alguém que escreve sobre o seu próprio lar, é natural referir-se ao local de forma absoluta, apenas como "casa", enquanto um historiador externo, como Marcos e Lucas, precisa especificar a propriedade para situar o leitor: “na casa dele”. Essa diferença parece pequena, mas combina muito com alguém escrevendo sobre o próprio lar.
Para exemplificar, imagine uma situação atual: uma pessoa está escrevendo sobre a festa de aniversário de outra pessoa. Normalmente ele diria: “João fez uma grande festa na casa dele”. Mas agora imagine que o próprio João resolvesse contar essa história sobre si mesmo. É muito comum que ele escreva de forma mais simples e discreta, dizendo apenas: “Estávamos em casa e havia muitas pessoas ali”. Ele não sentiria necessidade de dizer “minha casa”, porque para ele aquilo já é óbvio. Além disso, ao falar de si mesmo, talvez evitasse destacar demais a grandeza da festa para não parecer exibido.
Em segundo lugar, o detalhista Lucas destaca que Levi "deixou tudo" e ofereceu uma “festa luxuosa” (um grande banquete), mas o próprio Mateus suprime esses elogios em seu texto, focando inteiramente na presença de Jesus entre os "publicanos e pecadores". Essa autodepreciação e a escolha de termos simplificados sugerem que o escritor preferiu não dar destaque ao seu próprio sacrifício financeiro ou ao seu status social. Esse aspecto também funciona como uma "assinatura de modéstia", típica de quem narra a própria história sob uma perspectiva de conversão e humildade.
1.1.2. O Uso de Termos financeiros
Outra evidência de que Mateus escreveu seu livro está na forma como o livro foi escrito. O texto usa um grego organizado, objetivo e muito prático, parecido com a maneira como alguém acostumado com registros, relatórios e documentos oficiais escreveria. Isso combina bastante com a profissão de Mateus, que era cobrador de impostos, ou seja, um funcionário ligado à administração romana que precisava registrar impostos, controlar valores, lidar com documentos e se comunicar com autoridades. Para exercer essa função, era necessário saber ler, escrever e manter registros exatos.
Esta é uma “marca” indireta do próprio Mateus dentro do texto, pois ele organiza ensinamentos em blocos, gosta de números, valores e detalhes administrativos, além de apresentar as informações de maneira muito estruturada. Abaixo há alguns exemplos:
1.1.2.1. O Milagre da Moeda na Boca do Peixe
“E, chegando eles a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam as didracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as didracmas? Disse ele: Sim... Disse-lhe Jesus:… para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estatere; toma-o, e dá-o por mim e por ti.” Mateus 17:24-27
Este episódio é exclusivo de Mateus. Ele demonstra a familiaridade do escritor com a contabilidade do templo e com moedas que os outros evangelistas não mencionam.
A dracma era a unidade básica, equivalendo ao salário diário de um trabalhador comum, sendo citada exclusivamente por Lucas na parábola da mulher que procura diligentemente sua moeda perdida. Já a didracma, cujo prefixo "di" indica o dobro do valor, possuía uma função religiosa e civil específica: era o montante exato do imposto anual do santuário que todo judeu acima de 20 anos deveria pagar para a manutenção do Templo. A precisão matemática de Mateus, o ex-publicano, brilha ao registrar o milagre do peixe, onde o estatere encontrado por Pedro — uma moeda de quatro dracmas — serviu para quitar exatamente duas didracmas, cobrindo com perfeição o imposto de Jesus e do próprio discípulo. Para qualquer outro, poderia seria apenas "uma moeda de prata", mas para o ex-publicano Mateus, era o valor técnico perfeito.
Diferente do imposto do Templo, o tributo romano é registrado pelos três livros sinóticos do Evangelho (Mateus 22:15-22; Marcos 12:13-17; Lucas 20:20-26). O foco aqui não é a manutenção do santuário, mas a submissão ao Império Romano através do Denário. Nesta passagem, Jesus profere a famosa frase: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". A moeda utilizada era o Denário Romano, que circulava com a efígie do imperador.
1.1.2.2. A Parábola dos Trabalhadores da Vinha
“Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E, ajustando com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a sua vinha... E, aproximando-se a noite, disse o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o salário… chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um denário cada um. Vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas do mesmo modo receberam um denário cada um. E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família,... Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um denário?...” Mateus 20:1-16
Esta passagem é fundamental para reforçar a escrita de Mateus, pois revela a precisão contratual e o rigor lógico típicos de alguém treinado na administração pública romana. Mateus inicia a narrativa destacando que o senhor da vinha "ajustou" com os trabalhadores o valor de um denário por dia. O uso do termo grego symphonesas sugere a celebração de um contrato formal, refletindo a mentalidade de um ex-cobrador de impostos que entendia que qualquer relação de trabalho deveria ser pautada por um acordo financeiro claro e tecnicamente exato para o período, já que o denário era o salário padrão da época.
Além disso, a exclusividade desta parábola no Evangelho de Mateus ressalta sua visão de mundo voltada para a logística e prestação de contas. O relato detalha minuciosamente a ordem dos pagamentos e a estrutura hierárquica entre o dono da vinha e o seu administrador, culminando em um "fechamento de balanço" ao final do dia. Essa inclinação para registrar discussões sobre direitos laborais, justiça salarial e a administração de recursos funciona como uma "assinatura interna" do escritor, demonstrando que, embora tenha abandonado a coletoria, Mateus preservou sua habilidade de organizar o ministério de Jesus através de analogias financeiras e relatórios sistemáticos.
1.1.2.3. A Parábola dos Talentos
“... um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe… E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles…” Mateus 25:14-29
“Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois. E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha…’ Lucas 19:12-27
Enquanto Lucas (médico) focava em valores mais populares, citando a mina, na parábola semelhante Mateus usa o talento, a maior unidade financeira da época. O talento equivale a aproximadamente 6.000 denários (cerca de 20 anos de salário), uma quantia de "tesouraria estatal", porém a mina equivale a 100 denários (mais de três meses de salário), um valor comum no comércio cotidiano e nas transações entre cidadãos comuns. Marcos e João nem sequer mencionam essas unidades de investimento nessas passagens.
1.1.2.4. Termos de Prestação de Contas
"Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; e, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos… movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida… Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem denários, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves…” Mateus 18:23-35
O uso da expressão grega logon sunairein (fazer contas) nesse texto é uma das evidências linguísticas mais fortes de que o escritor possuía formação contábil. No grego koiné da época, essa não era uma frase comum da linguagem cotidiana, mas sim um jargão técnico do mundo das finanças e da administração pública romana. Enquanto outros escritores bíblicos usariam termos genéricos para "conversar" ou "julgar", Mateus utiliza o vocabulário específico de quem precisava, ao final de um expediente ou ciclo fiscal, "bater o caixa" ou "consolidar os registros" para verificar se os ativos correspondiam aos débitos.
Essa mentalidade de auditor transparece na forma como ele estrutura a parábola: ele não descreve apenas um encontro casual, mas um processo formal de auditoria financeira. Para um ex-publicano, a prestação de contas com Deus é compreendida através da lógica de um balanço patrimonial, onde dívidas impagáveis (como os dez mil talentos citados no versículo seguinte) só podem ser resolvidas através do perdão, já que o equilíbrio contábil seria impossível. Essa "assinatura técnica" reforça que o escritor não era apenas um observador, mas alguém que via a realidade e as verdades espirituais através das lentes da organização e da precisão administrativa que sua antiga profissão exigia.
Ao citar uma dívida de dez mil talentos, o equivalente a mais de 160 mil anos de salários, ele não escolhe um número aleatório, mas sim a maior cifra combinável na época para descrever uma insolvência absoluta. Para um ex-publicano habituado a lidar com os tributos das províncias, este valor representava uma quantia superior à arrecadação anual de nações inteiras, servindo para ilustrar, de forma tecnicamente fundamentada, a impossibilidade do ser humano quitar a sua dívida espiritual com Deus através de esforços próprios.
O rigor de Mateus também se manifesta no contraste analítico entre a fortuna perdoada e a dívida irrisória de "cem denários" cobrada pelo servo impiedoso. Ao estabelecer esta proporção de 600.000 para 1, o escritor utiliza sua competência em cálculos e balanços para enfatizar a desproporção entre a graça divina e a mesquinhez humana. Essa estruturação da narrativa, baseada em auditoria e comparação de valores exatos, funciona como uma assinatura interna do Evangelho, confirmando que o texto foi escrito por alguém cuja mente foi moldada pela organização financeira e pelo controle de contas do sistema romano.
1.1.2.4. Moedas de Prata e Ouro
"Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre..." Mateus 10:9
"Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje, nem bronze no cinto; mas que calçassem sandálias e não vestissem duas túnicas." Marcos 6:8-9
"E disse-lhes: Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforje, nem pão, nem prata; nem tenhais duas túnicas." Lucas 9:3
Mateus é o único que faz uma distinção tripla ao enviar os discípulos: Em passagens paralelas, Marcos menciona apenas chalkos, “bronze” ou "cobre" (a moeda mais barata) e Lucas menciona apenas “ballantion” "prata". Para Mateus, não bastava dizer "não levem dinheiro"; ele detalha as três classes de moedas que circulavam no sistema monetário da época. O ouro (moedas de alto valor, como o áureo romano), a prata (denários, dracmas) e o cobre (moedas de pequeno valor, como os ases). É a descrição minuciosa de alguém que passou anos separando moedas por seu metal e valor exato.
1.1.3. A Organização Sistemática (Estrutura em Blocos)
Mateus tem um tipo de organização distinta dos demais evangelistas. Como alguém que lidava com registros fiscais e relatórios administrativos, ele não escreveu apenas um relato cronológico, mas organizou os ensinos de Jesus em cinco grandes blocos (discursos). Essa habilidade de categorizar e arquivar informações de forma lógica é uma característica profissional de um funcionário público treinado, como Mateus.
Em vez de simplesmente listar os eventos, ele agrupou os ensinos de Jesus sistematicamente: o Discurso Ético (Sermão da Montanha), o Discurso Missionário (instruções aos doze), o Discurso Parabólico (mistérios do Reino), o Discurso Eclesiástico (relacionamentos na Igreja) e o Discurso Escatológico (eventos futuros). Essa estrutura "em blocos" facilita a consulta e o ensino, assemelhando-se a um manual ou a um relatório oficial bem estruturado, algo natural para quem passou a vida organizando registros fiscais e tributários.
Cada bloco de discurso termina com uma fórmula de transição fixa, como "E aconteceu que, concluindo Jesus estes discursos...", funcionando como um marcador de capítulo em um livro de contabilidade. Essa precisão estrutural e o uso de gatilhos linguísticos repetitivos são marcas registradas de um escritor que valoriza a ordem, a clareza e a categorização — qualidades indispensáveis a um funcionário da receita que, após sua conversão, aplicou sua competência profissional para sistematizar a mensagem do Evangelho.
Os Cinco Blocos de Discurso
Diferente de Mateus, os outros evangelistas estruturam seus relatos sob perspectivas geográficas, históricas ou teológicas:
Marcos imprime um ritmo de urgência à narrativa, organizando-se pelo movimento geográfico entre o ministério de poder na Galileia e a jornada final em Jerusalém, utilizando o termo grego euthys ("imediatamente") para conectar os fatos de forma dinâmica, sem agrupar longos discursos. Na primeira metade, foca no Ministério na Galileia (Capítulos 1 a 8:26) e fala da autoridade de Jesus, Seus milagres e a recepção popular na região norte. É o período da "ação constante", onde Jesus percorre as aldeias galileias. Na segunda metade foca na jornada e o sofrimento em Jerusalém (Capítulos 8:27 a 16), iniciando com a confissão de Pedro ("Tu és o Cristo") e seguindo com a descida para o sul. O foco deixa de ser os milagres e passa a ser o ensino sobre a cruz, culminando na entrada em Jerusalém e nos eventos da Paixão.
Lucas, por sua vez, assume o papel de um historiador grego, estruturando grande parte de seu texto em torno de um extenso "Relato de Viagem" (Lucas 9:51 a 19:27). Diferente de Mateus, que agrupa parábolas por tema (ex: Mateus 13), Lucas as distribui ao longo do caminho, focando no contexto em que foram ditas, seguindo a mesma ideia no livro de Atos dos Apóstolos.
Já João adota uma estrutura profundamente simbólica e teológica, organizando seu Evangelho em torno de sete sinais milagrosos e sete discursos de identidade ("Eu Sou"). O "Livro dos Sinais" (capítulos 1 a 12) apresenta a transformação da água em vinho (Cap. 2), a cura do filho do oficial (Cap. 4), a cura do paralítico em Betesda (Cap. 5), a multiplicação dos pães (Cap. 6), o caminhar sobre as águas (Cap. 6), a cura do cego de nascença (Cap. 9) e, finalmente, a ressurreição de Lázaro (Cap. 11). Entrelaçados a esses atos de poder, Jesus define sua missão através das declarações "Eu Sou": o Pão da Vida (Cap. 6), a Luz do Mundo (Cap. 8), a Porta das Ovelhas (Cap. 10), o Bom Pastor (Cap. 10), a Ressurreição e a Vida (Cap. 11), o Caminho, a Verdade e a Vida (Cap. 14) e a Videira Verdadeira (Cap. 15). Diferente da "planilha" administrativa de Mateus, essa disposição joanina foca na revelação teológica progressiva, culminando no "Livro da Glória" (capítulos 13 a 21), onde o significado desses sinais é plenamente realizado na Paixão e Ressurreição.
1.2. Evidências Externas de que Mateus escreveu o Evangelho:
1.2.1. O Título do Livro nos Manuscritos mais antigos
É muito interessante que, diferente de outros textos da antiguidade que apresentam variações de autoria em diferentes cópias, não existe nenhum manuscrito antigo deste evangelho que ostente um título diferente. Todos os manuscritos antigos reconhecem Mateus como o legítimo escritor desta obra.
O Papiro 4 (P4), datado entre o final do século II (cerca de 175 d.C. a 200 d.C.), embora tenha como texto principal o Evangelho de Lucas, ficou famoso por causa de uma folha que estava grudada ou inserida no manuscrito. Nesta folha, estava escrito o título: "Ευαγγελιον Κατα Μαθθαιον" (Euangelion Kata Matthaion - Evangelho Segundo Mateus). Ele, então, representa a evidência física mais antiga do escritor deste relato bíblico. A descoberta de um fragmento de sua "folha de rosto" revelou o título grego Euangelion Kata Matthaion, traduzido como "Evangelho Segundo Mateus". Este achado é de suma importância histórica, pois demonstra que, apenas um século após a redação original do texto, ele já era formalmente identificado e circulava no mundo antigo sob o nome de Mateus. Um aspecto que chama a atenção de historiadores e estudiosos é a absoluta unanimidade em relação a essa atribuição.
Para quem considere 100 anos entre a escrita e o primeiro manuscrito uma distância muito grande, é importante lembrar que os manuscritos originais do primeiro século praticamente não sobreviveram, não apenas dos livros bíblicos, mas de quase toda a literatura antiga. Assim, o fato de o manuscrito mais antigo existente ser posterior não prova que o nome do escritor surgiu tardiamente; apenas mostra a data do fragmento que sobreviveu até hoje.
Além disso, quando os manuscritos começam a aparecer em maior quantidade, todos já trazem o mesmo nome: Evangelho de Mateus. Não existe nenhum manuscrito antigo atribuindo esse Evangelho a outro escritor. Isso é muito importante, porque se o nome tivesse sido acrescentado muito tempo depois, seria esperado encontrar divergências, disputas ou diferentes tradições em regiões distintas. Porém, igrejas espalhadas por vários lugares do mundo antigo, falando línguas diferentes, preservaram o título do mesmo escritor: Mateus.
No mundo antigo, os livros eram copiados manualmente e circulavam entre as igrejas. Se o Evangelho fosse originalmente anônimo, seria muito difícil explicar como comunidades cristãs tão distantes chegaram unanimemente ao nome de Mateus sem registros de debates ou controvérsias. Normalmente, quando havia dúvida sobre um autor antigo, surgiam opiniões diferentes. Mas, no caso do Evangelho de Mateus, a tradição aparece de forma muito estável e consistente desde os primeiros séculos, como é possível ver a seguir:
1.2.2. O Testemunho dos chamados pais da Igreja
1.2.2.1. A Era das Testemunhas Oculares: Século I e Início do II
“Mateus reuniu, de forma ordenada, na língua hebraica, as sentenças e cada um as interpretava conforme sua capacidade”. Eusébio, História Eclesiástica III Capítulo 39.16
Papias de Hierápolis (c. 60–130 d.C.) ocupa um lugar privilegiado na história da igreja por sua proximidade temporal e geográfica com a era apostólica. Como discípulo do "Presbítero João" e companheiro de Policarpo (que, por sua vez, fora instruído pelo próprio Apóstolo João), Seu relato, preservado por Eusébio de Cesareia, é o registro histórico mais antigo a identificar Mateus como o escritor que "reuniu, de forma ordenada, na língua hebraica, as sentenças". Esta afirmação é crucial, pois estabelece que o Evangelho de Mateus não surgiu de forma anônima ou aleatória, mas foi uma compilação estruturada por uma testemunha ocular que buscou registrar os ensinos de Jesus primeiramente para o seu próprio povo.
A menção específica de Papias sobre o uso da "língua hebraica" (ou aramaica, o dialeto semítico da época) por Mateus reforça a autenticidade do seu perfil de ex-publicano. Alguém com a formação técnica de Mateus, habituado a lidar com registros oficiais e comunicações em múltiplas línguas na coletoria de impostos, estaria perfeitamente apto a organizar as "sentenças" (logia) do Mestre de maneira sistemática.
O comentário de Papias de que "cada um as interpretava conforme sua capacidade" sugere que os escritos originais de Mateus foram a base fundamental sobre a qual a igreja primitiva se debruçou para compreender a missão de Jesus. Esse testemunho externo de Papias harmoniza-se perfeitamente com as evidências internas de precisão e ordem encontradas no texto, solidificando a assinatura de Mateus como o escritor desse registro.
1.2.2.2. A Confirmação por outras Testemunhas: Século II
“Mateus compôs seu evangelho entre os hebreus em sua própria língua...” Capítulo 1; PG 7:844
Irineu de Lyon (c. 130–202 d.C.) era discípulo de Policarpo de Esmirna, que foi discípulo do apóstolo João. Ele viaja da Ásia Menor para a França (Gália) e para Roma, confirmando que, em todo o mundo cristão, apenas quatro evangelhos eram aceitos. Em sua obra Contra as Heresias, Irineu é o primeiro a sistematizar a autoridade quádrupla dos Evangelhos, argumentando que, assim como existem quatro pontos cardeais e quatro ventos principais, a Igreja possui um "evangelho quadriforme" sustentado por um único Espírito, rejeitando qualquer tentativa de adicionar ou remover textos da lista oficial composta por Mateus, Marcos, Lucas e João.
Ao afirmar especificamente que "Mateus compôs seu evangelho entre os hebreus em sua própria língua", Irineu fornece um contexto cronológico e cultural que reforça a identidade do escritor como uma testemunha ocular de raízes judaicas. Para Irineu, a escrita de Mateus não era uma mera suposição teológica, mas um fato histórico aceito em todas as províncias que ele visitou. Esse testemunho é fundamental para a defesa da autenticidade do texto, pois demonstra que, já no segundo século, a figura do ex-publicano Mateus era indissociável do primeiro livro do chamado Novo Testamento, servindo como base autoritativa para a fé cristã tanto no Oriente quanto no Ocidente.
1.3. Mateus escreveu ao povo de Israel
Mateus escreveu para o povo de Israel, teoricamente conhecedores das profecias do chamado Antigo Testamento. Por isso, o tempo todo ele invoca essas promessas ao usar a fórmula explícita “para que se cumprisse o que disse o profeta” principalmente no início do evangelho (capítulos 1–2) e depois espalha ao longo da narrativa, no total de mais de 10 vezes, essa expressão. No final (cap. 26–27) usa formas mais gerais, tais como “para que se cumprissem as Escrituras” ou “importa que se cumpra…” Isso mostra que Mateus não queria apenas listar profecias cumpridas, mas construir a ideia de que toda a vida de Jesus Cristo está debaixo de um plano profético já anunciado. Ele escreve como se todo o evangelho fosse o cumprimento das Escrituras:
Para efeito de comparação, enquanto Marcos usa 25 a 30 referências, João usa 25 a 35 referências, e Lucas usa 30 a 40 referências, o Evangelho de Mateus cita aproximadamente 60 a 65 referências do chamado Antigo Testamento. Quase o dobro dos demais. Abaixo alguns exemplos:
"Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é: Deus conosco." Mateus 1:22-23
"E esteve lá até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho." Mateus 2:15
"Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que diz: Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto; Raquel chorando seus filhos, e não querendo ser consolada, porque já não existem." Mateus 2:17-18
"E chegou, e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno." Mateus 2:23
"E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali; para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz: A terra de Zebulom e a terra de Naftali, junto ao caminho do mar, além do Jordão, a Galileia dos gentios; o povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; e, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, a luz raiou." Mateus 4:13-16
"Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças." Mateus 8:17
"Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Eis aqui o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz; porei sobre ele o meu Espírito, e anunciará aos gentios o juízo." Mateus 12:17-18
“Tudo isto disse Jesus por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas; para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, que diz: Abrirei em parábolas a minha boca; publicarei coisas ocultas desde a fundação do mundo." Mateus 13:34-35
"Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta, que diz: Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem, manso, e assentado sobre uma jumenta, e sobre um jumentinho, filho de animal de carga." Mateus 21:4-5
"E Jesus lhes disse: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos?" Mateus 21:42
"Pois eu vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento." Mateus 26:54
"Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então todos os discípulos, deixando-o, fugiram." Mateus 26:56
"Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que diz: E tomaram as trinta moedas de prata, preço do avaliado, que certos filhos de Israel avaliaram, e deram-nas pelo campo do oleiro, segundo o que o Senhor me determinou." Mateus 27:9-10
Diante de todas essas informações, percebe-se que a ideia de que o Evangelho de Mateus teria sido escrito por uma comunidade anônima não possui base sólida. Pelo contrário, as evidências internas e externas apontam para um escritor real, conhecido e reconhecido desde os primeiros séculos da Igreja: Mateus, o antigo publicano chamado por Jesus. O próprio livro apresenta marcas que combinam com sua profissão e personalidade: organização detalhada, linguagem administrativa, interesse por moedas, impostos, contratos e prestação de contas. Além disso, a forma humilde como o escritor fala de si mesmo revela características naturais de alguém narrando a própria história, e não de um grupo tentando inventar um escritor fictício.
Também fica claro que a Igreja antiga não tratava os Evangelhos como textos anônimos. Os manuscritos mais antigos já trazem o nome de Mateus no título, e os primeiros escritores cristãos confirmavam essa escrita muitos séculos antes das teorias modernas surgirem. Igrejas espalhadas por diferentes regiões e falando diferentes línguas preservaram a mesma informação sem divergências. Isso mostra que a escrita de Mateus não foi uma invenção posterior, mas uma tradição histórica muito antiga e bem estabelecida.
Além disso, o Evangelho demonstra um profundo conhecimento das Escrituras judaicas, revelando que o escritor as conhecia e escrevia especialmente para o povo de Israel. O tempo todo, Mateus mostra que Jesus cumpriu as profecias anunciadas pelos profetas. Seu objetivo não era apenas contar acontecimentos, mas provar que Jesus é o Messias prometido desde o chamado Antigo Testamento. Assim, tanto o conteúdo do livro quanto os testemunhos históricos fortalecem a confiança de que o Evangelho foi realmente escrito por Mateus, testemunha ocular do ministério de Jesus e transformado pela graça de Cristo.